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O que é a Psicoterapia?

Quando falamos em terapia, ocorre-nos estudar a etimologia da palavra que nos informa muito sobre o conceito.
TERAPIA vem de THERAPEUEN, uma palavra grega que significa CURA e INICIAÇÃO. O significado desta palavra tem um sentido mais amplo que curar; os terapeutas dos primórdios eram iniciadores, mais do que simples restabelecedores de saúde.
Estes iniciadores eram necessários a partir do momento que a doença passa a ser entendida como a “quebra do sentido de unidade do ser”. A vivência e a superação das dualidades e oposições (espírito x matéria, amor x lei, corpo x alma) é um trabalho terapêutico (corporal) e trata-se da saúde do SER.
Em hebraico saúde diz-se BERIU. O adjectivo de são e sadio é BARI. Essas palavras têm como raiz BERIYA, que significa criação do mundo, do verbo BARA, criar. Estar em boa saúde significa estar em criação, em re-criação, no gozo incessante do mundo e de si.
Nesta perspectiva de saúde, o que é a doença? É a estagnação, é a negação da vida e de si mesmo, como individuo e como célula do cosmo; portanto, para a cura, faz-se necessária uma certa “conversão”. Ser movimento, ser dança e não estática. Ser dúvida e não certeza; ser coxo e não super-homem. A conversão também promove uma cura de memória; é a cura dos sentimentos de ansiedade, medo, vazio, inutilidade. Atribui-se grande poder terapêutico à paz interior. Quando a consciência está cheia de amor, alegria, paciência, ela possui a força da cura.

Que conversão é essa?
O primeiro passo terapêutico é a abertura para receber e para conhecer. O desejo de receber é inerente à criatura, assim como o impulso à doação. Nossos olhos buscam sempre novas realidades; nossos sentidos aspiram a novas impressões.
A alegria é a capacidade de inventar-se. Para muitos pesquisadores actuais, as doenças originam-se na tristeza, a degradação da alegria, a perda do objectivo que significa a alegria de existir. Nossos sentidos existem para nos despertar para realidades situadas para além dos sentidos. O apelo dos sentidos é de nos levar além dos sentidos; a limitação ocorre quando tomamos por única realidade o que os sentidos e desejos perceber. A liberdade está em entender o campo dos sentidos como símbolos e sentimentos interior com a possibilidade de ver-se para além dos sentidos.
Em qualquer pessoa, existem duas realidades: a externa e a interna.
A interna é moldada pelo passado (a nossa história pessoal) com a tendência de se ver o presente como passado. A externa é experimentada em função da interna. A função do terapeuta é unir estas realidades, e cada terapia dentro de sua linha de trabalho.
Na situação terapêutica, recordar o passado, geralmente é tido como a repetição do que foi desagradável (padrões de comportamento). Porque repetimos? A repetição é uma busca inconsciente pelo domínio daquelas ansiedades que haviam sido incontroláveis anteriormente. Cada repetição é uma oportunidade de modificação; mas existem “buracos negros” imperceptíveis, que apesar do nosso esforço de reparação, nos impossibilitam de sair do círculo repetitivo. Campbell escreveu: “Quem não conhece o seu passado, está fadado a repeti-lo”.
Ninguém pode reconhecer o seu próprio inconsciente sem a ajuda de alguma outra pessoa. Este personagem aparece como espelho, para ajudar o inconsciente, tornar-se consciente. O que mantêm o inconsciente afastado do consciente? A repressão. O que é demasiado ameaçador é reprimido e esquecido; da repressão derivam comportamentos que o outro (terapeuta) pode reconhecer e se for interpretado e apontado de forma construtiva e significativa para o paciente, dentro da relação terapêutica, estes comportamentos começam a penetrar no conhecimento do paciente e transformado em vivências unificadoras.
Nesta díade – terapeuta/cliente – há uma comunicação inconsciente (quer esta comunicação esteja consciente ou não). Existem pesquisas da neurobiologia, que explicam esta comunicação acontecendo no sistema límbico, de forma idêntica de comunicação entre mãe e filho nos primeiros anos de vida. Esta comunicação existe em todos os relacionamentos humanos.
Na situação terapêutica, o terapeuta procura o inconsciente do cliente e o cliente lê o inconsciente do terapeuta. Este último, comunica muito mais de si do que supõe, e a isto, chamamos de TRANSFERÊNCIA. É nesta comunicação inconsciente subliminar entre paciente e terapeuta, que muitas vezes a terapia se faz e os scripts de nossas repetições se desenrolam.
No livro “Aprendendo com o paciente”, o autor diz que o terapeuta, deveria analisar, sob a perspectiva do cliente, o que pensa que está acontecendo (supervisão interna). Colocar-se na posição do cliente e perguntar: o que penso do meu terapeuta, como vivo a nossa relação, que acontece aqui e agora? Perguntar para o seu cliente: o que você pensa de mim? Quais são os meus defeitos e qualidades para você? Estes resultados são muito úteis na resolução de conflitos transferenciais e na compreensão do que existe no espaço “entre” o terapeuta e o seu cliente, ou o cliente e o seu terapeuta.
Os terapeutas muitas vezes, precisam tolerar longos períodos durante os quais podem se sentir ignorantes e incapazes; isto é saudável para o processo terapêutico, pois estar num estado apropriado de não saber, abre perspectivas à nova compreensão.
Bion, um grande psicanalista argentino, consagrou a abertura ao desconhecido. Ele dizia: “em todo o consultório, deveria haver duas pessoas assustadas: o paciente e o analista”. Reich, por sua vez, considera que o cliente e o terapeuta são “dois animais num quarto”.
As teorias psicológicas são utilizadas como instrumento para moderar a incapacidade do não saber; as teorias são suportes e a presença do terapeuta, a ferramenta.

Freud, em seu trabalho “ O futuro de uma ilusão” escreveu:
- “ E assim é criado um stock de ideias, nascido da necessidade do homem de tornar a sua incapacidade tolerável.”
Não saber não é ignorância, porém muitas vezes são equiparadas. Os terapeutas deveriam suportar a tensão do não saber, pois desta forma aprendem que a sua incompetência como terapeutas, inclui a capacidade de tolerar sentirem-se ignorantes e incompetentes e à disposição de esperar (e continuar esperando) até que alguma coisa realmente significativa comece a emergir. Só assim, evitamos uma interpretação prematura, ou uma intervenção equivocada, que não leva a nada, a não ser proteger o terapeuta do desconforto de saber que não sabe.
Portanto, as teorias psicoterapêuticas são suportes para a relação, mas também pode cegar. A visão binocular (teoria mais enfoque na unidade – singular – indivisível que é a presença do cliente) é um factor de relevância.
Citando Ron Kurtz: “Num ambiente favorável, o inconsciente pode fazer desabrochar a cura das formas mais notáveis. Se o terapeuta não for o ambiente correcto, o processo pode levar um longo tempo. Ambiente correcto é um estado mental do terapeuta; uma presença que transmite que o sofrimento, o desespero não é sem sentido. A vida não é sem sentido.”
A presença amorosa do terapeuta é a melhor fonte terapêutica para os clientes avançarem. Poder criar um estado mental de presença amorosa, faz parte do “treino” do terapeuta. Neste treino, procurar o lado mais fácil do cliente ou mais belo, poder visualizar a beleza do seu cliente é fundamental.
Outro item para este treino é saber que o que você ouve, é um exemplo da condição humana, faz parte da história universal, da minha, da sua, de todo o mundo. É a história da humanidade (a ontogénese repete a filogénese).
O terceiro item, consiste em lembrar que estamos destinados à iluminação e que todo o sofrimento que parece tão real para nós, na realidade, está baseado num mal-entendido. Não somos este self que sofre tanto; estamos sim, presos numa armadilha que tem um “segredo” para ser desmontada.
Finalmente, perceber que todo o processo de auto conhecimento é um processo de resgatar o amor, reaprender a amar, pois todos nós nascemos com esta capacidade, mas a esquecemos no meio do caminho.

Estela Rúbia de Paiva Rodrigues

Bibliografia
Reich, Wilhelm – A função do Orgasmo
Kurtz, Ron – Palestra – “A Psicoterapia como prática espiritual” – 1994
Kurtz, Ron – Palestra – “Aprendendo com o paciente I e II”
Lelloup, Ives – “Terapeutas do Deserto” – “ Cuidar”

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